Fazemos Bem

18/12/2017

Ana Teresa Lehmann: “A tradição é uma grande mais-valia”

A tradição na indústria portuguesa não é inimiga da inovação, bem pelo contrário. Qual é o passo seguinte? “Falta-nos dizer bem. E dizer bem mais vezes”, começaria por apontar a secretária de Estado da Indústria, Ana Teresa Lehmann (à direita na foto), concordando com a tese da “falta de autoconfiança” avançada por Carlos Brito, pró–reitor da Universidade do Porto, para justificar parte dos “20% que explicam 80% das dificuldades” vividas por empresas e indústrias nacionais.

“Há duas coisas que nos fazem falta. Uma é confiarmos em nós próprios – é que somos muito melhores do que aquilo que pensamos, mas falta-nos confiança. E falta outra coisa, que é capacidade de organização”, analisava o professor durante o debate que marcou a cerimónia de atribuição dos Prémios Fazemos Bem, uma iniciativa do “Jornal de Notícias” que distinguiu três empresas nas áreas da Inovação, Exportação e Crescimento e que decorreu na passada quinta-feira, dia 14 de dezembro, no Mercado Ferreira Borges, no Porto.

“Se resolvêssemos os problemas da autoconfiança e da organização, éramos imbatíveis no Mundo inteiro. Porque as pessoas são fantásticas”, afirmou o pró-reitor. E não tardaria muito para que, no discurso de encerramento do evento, Ana Teresa Lehmann desconstruísse as eventuais motivações para a falta de confiança: “o nosso país, não sendo muito grande, é, do ponto de vista empresarial e industrial, extremamente diversificado e tem muito para oferecer”.

“Temos muito talento em Portugal. E talento significa ter os conhecimentos adequados para a função, significa o saber fazer e ter a atitude correta, o saber estar. Passa muito por questões de criatividade e engenho humano. Talento não tem nada a ver com graus académicos; tenho colegas doutorados que não têm talento nenhum e conheço gente analfabeta que tem muito talento”, assinalou Carlos Brito.

Inovação na tradição
A intervenção da secretária de Estado ficaria ainda marcada pela particular ênfase que conferiu ao tema da “inovação na tradição”: “em Portugal, temos de orgulhar-nos da nossa tradição, e a nossa tradição não é só em um ou dois setores, é em muitos setores, e isso é uma grande mais-valia e o que é verdadeiramente diferenciador do nosso tecido empresarial”.

“Não é por acaso que, muitas vezes, os nossos setores tradicionais são dos mais inovadores”, vincou Ana Teresa Lehmann, para quem “não faz qualquer sentido” distinguir entre indústria tradicional e tecnológica, “porque a indústria tradicional tem, muitas vezes, maior incorporação tecnológica do que outros setores conhecidos como das tecnologias e que às vezes não têm valor acrescentado”. E sublinhou: “a nossa riqueza está justamente neste binómio inovação/tradição”.

“A nossa indústria é orgulhosa da sua tradição, mas não é por isso que deixa de apostar em tecnologia de elevadíssimo calibre e, por vezes, até disruptiva em setores tão diversos como têxtil, calçado, metalomecânica ou agroindustrial. É este o caminho da tal indústria de futuro”, vaticinou a governante.

O desafio da Indústria 4.0
“A inovação encontra-se e está muito presente nos setores ditos tradicionais, mas também nas startups. Temos um dinamismo muito interessante e empresas emergentes em diversas áreas”, observou Ana Teresa Lehmann, que se congratulou com o “momento muito positivo” da economia nacional “em termos de crescimento, de exportação e inovação e com o contributo de diversos setores de atividade e fruto do trabalho das empresas”.

“As nossas empresas e a nossa indústria recomendam-se”, garantiu a secretária de Estado, salientando que “os empresários têm sabido adaptar os seus negócios a processos produtivos e inovadores no âmbito da chamada Indústria 4.0”.

“A digitalização da economia é uma das nossas prioridades, e estamos a apoiar as empresas nesta transição através de uma estratégia baseada em políticas públicas e alavancada em várias linhas de financiamento e apoio à iniciativa privada. Estamos a falar de uma verdadeira aliança estratégica entre meios e políticas públicas e projetos privados que permite modernizar a nossa indústria”, explicou, frisando que “há muitas empresas que têm tido a visão de se modernizar, mas é preciso de facto alastrar e generalizar este processo”.

“País precisa de quadros médios”
No âmbito do debate que precedeu o discurso de Lehmann, Teófilo Leite, engenheiro mecânico e proprietário da empresa de calçado profissional Lavoro, enfatizou que “a diplomacia económica precisa de ser incentivada”. “Estamos confrontados com dois grandes desafios: um é a revolução industrial 4.0, e precisamos de ter mais formação nesse sentido e mais técnicos para esse efeito. O outro são as novas técnicas de vendas internacionais e globais, que têm a ver com o digital e com o e-commerce”, referiu.

“Tenho consciência de que esta transformação digital comporta desafios. E talvez o maior seja o desafio social, que está relacionado com as pessoas. A automação, a robotização e outras tecnologias obrigam à requalificação dos recursos humanos para responder às exigências das fábricas modernas. Muitos dos empresários com quem tenho conversado têm falta de profissionais qualificados a vários níveis, desde os engenheiros aos cientistas, até aos operários qualificados para trabalharem nas fábricas”. Alberto Figueiredo, dono da premiada têxtil Impetus na categoria Exportação, revelou ser um exemplo da descrição traçada por Ana Teresa Lehmann, e mostrou-se “muito crítico em termos da formação”.

“Acho que temos quantidade e não qualidade”, lamentou, afirmando que “a formação é mal feita”. E alertou: “o rumo é a formação, mas de qualidade. O país precisa muito de quadros médios”. “Para arranjar um afinador de teares circulares andei a mendigar por todo o lado e fui buscar um a peso de ouro a uma empresa, porque não há no mercado. Procurei dar formação aos meus técnicos e não conseguia formadores”, exemplificou, considerando que “os cursos das universidades estão fora da realidade das empresas”.

Ana Correia Costa