Fazemos Bem

10/07/2017

A livraria que passou a ser vista como um autêntico monumento

Livraria Lello. Não haverá porventura catálogo turístico da cada vez mais popular cidade do Porto que não contemple a Livraria Lello, enquanto lugar de visita obrigatório para qualquer turista que, seja em que altura do ano for, se passeie pela baixa da Invicta. Este é um facto que se deve não só ao cardápio literário variado que a livraria tem para oferecer, como a uma arquitetura de beleza ímpar e que é exibida por fora e por dentro. Para lá daquilo que, no presente, é prontamente visível por aqueles que percorrem a Rua das Carmelitas, onde fica situada a Lello, há toda uma longa e rica história que, de igual modo, contribuiu para despertar a curiosidade do público.

Aurora Pinto preside ao conselho de administração que tem por incumbência gerir aquilo que, como se perceberá nas linhas adiante, se transformou em algo mais do que uma livraria bonita e histórica. Ao JN, começa por contar em traços gerais o que foram os primórdios da Lello. “O início remonta a 1906, no entanto as suas origens vêm de trás, quando em 1881 os irmãos Lello chegaram ao Porto e se dedicaram ao setor livreiro. Foi então que compraram a Livraria Chardron e, posteriormente, decidiram abrir outro local que tivesse um cariz icónico para desenvolver esta atividade. É aí que se inaugura a Lello, que é de facto um projeto arquitetónico fantástico. Os seus proprietários queriam que isto fosse um templo dedicado às artes e esse desejo foi conseguido”.

Contudo, o tempo foi passando e não se pense que a livraria não conheceu dificuldades. Pelo contrário. Segundo conta Aurora Pinto, “nos últimos 15 anos houve um fluxo turístico que criou complicações à atividade livreira”. Tudo porque a Lello deixou de ser vista como tal e passou a ser olhada enquanto uma espécie de monumento. “As pessoas entravam, fotografavam e saíam. Era até desrespeitador para o estabelecimento em si”, desabafa a Presidente do Conselho de Administração. Ao mesmo tempo, era premente a necessidade de obras e de investimento.

A partir de 2015, deu-se uma mudança radical na lógica de gestão da Lello. Desde logo, foram feitos trabalhos de melhoramento e de reabilitação das infraestruturas. Depois surgiu o voucher e, graças a ele, a possibilidade de encontrar um ponto de equilíbrio rentável entre o apelo do turismo e o funcionamento do espaço na sua essência. Como explica Aurora Pinto, “este voucher não é um bilhete normal. Os visitantes têm de o adquirir, mas depois o seu valor pode ser deduzido na compra de um livro. O voucher salvou a Lello. Era isso ou a livraria morria”. Curiosamente, em média, apenas 30% dos clientes converte o referido voucher em compras.

Mais recentemente, foi criado o cartão “Amigo da Livraria Lello”, que elimina a espera em filas. O cartão garante um acesso prioritário ao espaço e ainda a ajuda de um livreiro . Há duas versões: o cartão pessoal e o familiar. Têm a validade de um ano.

Certo é que, em 2016, as vendas dispararam e superaram os 200 mil livros. Já em 2017, a expectativa é chegar aos 300 mil. O volume de negócios conheceu, igualmente, um aumento considerável, passando de 1 milhão de euros em 2015 para 4,5 milhões no ano passado. Estas verbas foram fulcrais para que fosse dada continuidade às já mencionadas obras que, entre outros fins, permitiram recuperar a fachada e evitar a queda de chuva no interior da própria livraria.

O número de visitas também está, como seria previsível, em conformidade com o crescimento de faturação registado. No último mês de junho, foram perto de 75 mil os que passaram pelo local que inspirou a escritora britânica J. K. Rowling, na criação dos romances de Harry Potter. A este propósito, desenganem-se, porém, os que julgam que o imaginário associado ao famoso feiticeiro é o grande responsável pela popularidade que a Lello vem granjeando. Segundo os seus responsáveis, os aspetos arquitetónicos são os que prevalecem para a franca maioria do público que, em 97% dos casos, a considera a mais bela livraria do Mundo. Portugueses, brasileiros, franceses, espanhóis, norte-americanos, e até sul-coreanos são algumas das nacionalidades da maior parte dos que lá param.

No que diz respeito a postos de trabalho estão, de momento, empregados na livraria cerca de quarenta funcionários (em 2015 eram só oito). Os trabalhadores distribuem-se pela Lello e pelos Armazéns do Castelo (propriedade da empresa), que funcionam como apoio e onde são desenvolvidos programas culturais. Aurora Pinto revela que “era impossível crescer estando-se circunscrito espacialmente à livraria. Os armazéns permitiram que fosse oferecida uma resposta eficaz aos múltiplos eventos que são organizados”.

Para o futuro, a administradora revela que existem planos para o reforço e expansão, que podem passar inclusive pela abertura de outros espaços (não ligados ao âmbito literário de forma obrigatória). Um teatro ou um hotel é, até agora, o que está nas cogitações daqueles que têm a seu cargo a direção desta marca universal, de raízes umbilicalmente portuenses.

Como inovou?

No decurso das suas 111 primaveras, e designadamente nos últimos dois anos, a Lello não adormeceu à sombra daquelas que são as suas privilegiadas potencialidades arquitetónicas e de localização. De maneira a manter-se sempre com uma linha inovadora e atrativa para o público, a livraria tem promovido um vasto número de atividades que se prendem com a cultura e não só. Aurora Pinto enumera algumas delas. “Queremos ser um agente cultural da cidade. Temos um programa extenso, cada vez mais forte e que pretendemos que esteja associado aos livros. Agora, vamos ter uma iniciativa ligada ao fado, que vai permitir aos turistas ouvir música, mas com o foco em poemas de autores portugueses. Haverá também, este mês, um teatro de rua em torno do livro “Amor de Perdição”, de Camilo Castelo Branco. Além disto, realizámos já algumas conferências relevantes, relacionadas, por exemplo, com o posicionamento do Porto no que respeita ao turismo”.

Duarte Pernes

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