Fazemos Bem

29/11/2016

Conferência 2016. Conhecimento e inovação são o caminho

Legenda: David Pontes, subdiretor do “Jornal de Notícias” (à esquerda), moderou o debate que contou com a participação de Pedro Quelhas Brito, professor da Faculdade de Economia do Porto, Catarina Martins, Prémio “Melhor Jovem Agricultor de Portugal 2016”, e António Cardoso Pinto, presidente do Conselho de Administração da Adira


“Na realidade, fazemos muita coisa boa já há muitos séculos”, mas “não basta só fazer bem; é preciso fazer bem todos os dias. Não basta fazer bem hoje; é preciso fazer melhor amanhã. E depois é preciso persistir, apesar dos aspetos negativos que podem ocorrer”. Pedro Quelhas Brito, professor da Faculdade de Economia da Universidade do Porto, abriu assim o debate que no dia 22 de novembro marcou a conferência “Prémios Fazemos Bem – Crescer para além da crise”, uma iniciativa do “Jornal de Notícias” que decorreu na Fundação Dr. António Cupertino de Miranda, no Porto.

E a introdução não poderia ter surgido mais a propósito para o que se seguiria: os restantes oradores, António Cardoso Pinto e Catarina Martins, anunciaram precisamente que estão a “fazer bem todos os dias” e que o objetivo é “fazer melhor amanhã”. E se o presidente do Conselho de Administração da Adira revelou que a empresa está a lançar “duas novidades mundiais de grande peso” ao nível de maquinaria – foram apresentadas, “há cerca de duas semanas, na Alemanha”, avançou -, a transmontana que recebeu o prémio “Melhor jovem agricultor de Portugal 2016” adiantou que almeja “aumentar a área [de produção], faturar um milhão de euros e empregar mais pessoas”, apesar de todos os “critérios burocráticos”.

“Acho que não devem ser os de fora a vir apostar no nosso país. Temos capacidades suficientes, e basta querermos para conseguirmos fazer. Podíamos ser nós a fazer o trabalho que outros estão a executar dentro do nosso país”, desafiou Catarina Martins, referindo-se à exploração agrícola intensiva que está a ser feita por espanhóis no Alentejo.

“Novidade tecnológica”

“É fazendo coisas novas que nos mostramos ao Mundo e nos internacionalizamos”, defendeu, por sua vez, António Cardoso Pinto, referindo que “a internacionalização da Adira está muito baseada na diferenciação trazida pela engenharia e pela inovação”. “É com base nesta inovação permanente, que, de resto, é o slogan da Adira, que a empresa se dá a conhecer, faz o posicionamento da marca e nos permite entrar em mercado. Entramos nos outros mercados pela novidade tecnológica. É a arma que utilizamos”, aponta o líder da empresa portuense da área da metalomecânica que venceu no setor secundário os “Prémios Fazemos Bem 2015” e que conta com clientes como a Bombardier, Bosch, Siemens, Boeing ou Airbus, sendo que uma das duas máquinas que está agora a apresentar é – como explicou António Cardoso Pinto – de “fabricação aditiva para peças metálicas de grande porte, e é a primeira no mundo”. Uma inovação que foi possível também graças a uma parceria com o Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência – INESC TEC.

“Um dos grandes méritos da Adira foi ter arrancado muito ligada à universidade. Muitos dos desenvolvimentos que acontecem naquela casa são feitos com a cooperação destas instituições”, reconhece o presidente da empresa, que considera, porém, que neste campo “está feita uma ínfima parte”. E socorreu-se de exemplos americanos: “os professores de Harvard e de Stanford só renovam os contratos se provarem que trabalham mais de 50% numa empresa, ou para as empresas. É uma condição, se não tiram-lhes as cadeiras. Isto quer dizer que os professores estão muito ligados à realidade, e isso é bom para as empresas, para eles e para os alunos. A universidade portuguesa não está virada para as empresas. Fala-se muito, mas eu diria que há muitíssimo mais para fazer, e desafiava as instituições universitárias e os ministérios da Economia e da Educação a adotarem uma bandeira: quem não meter a mão na massa, não anda a discutir o sexo dos anjos”.

A contra-argumentação de Pedro Quelhas Brito não se fez esperar. Apesar de enaltecer o “bom exemplo da Adira” nesta área, o professor universitário afirma que “grande parte da dificuldade que há para cooperar [com as universidades] vem das empresas e da mentalidade dos empresários. Não vem da nossa parte”. E, salientando que esta “é uma questão que tem de ser vista dos dois lados”, teceu ainda críticas às empresas que aproveitam trabalho de jovens a título gratuito. “Não recomendo alunos meus para trabalharem sem qualquer remuneração. Isso é indecente, é indigno. Pelo menos, que paguem os custos de manutenção. Eles representam uma mais-valia, estão a aprender, e há um mínimo que se chama dignidade”, defendeu.

“Não basta ser barato”

Lembrando que, com a crise, “os custos do trabalho caíram substancialmente” e houve “flexibilização laboral”, o docente sustentou ainda que ao país “não basta ser barato” para atrair investimento estrangeiro. “É que ninguém gosta de comprar coisas baratas. O que diferencia cada vez mais não é ter mão de obra barata, porque há sempre quem a tenha mais barata. No limite, há mão de obra escrava em alguns países, infelizmente”, referiu, frisando que “estes elementos ditos de competitividade não ajudaram”. “O que torna [um país] mais competitivo é o conhecimento e a inteligência. É inovar. Estas não são coisas abstratas, e são o que torna as empresas mais competitivas, mais disponíveis para exportar e mais atrativas”.

Além do turismo, das “startups” ou das indústrias do têxtil e do calçado, Quelhas Brito destacou ainda a agricultura como um dos setores em que se encontram “mais situações de fazer bem”. “Acho muito interessantes estes novos agricultores, que são muito diferentes dos antigos. São gente sofisticada e bem preparada. Deixou de ser um setor triste, que era para evitar, e passou a ser algo atrativo que os jovens querem desenvolver. E temos excelentes resultados”, concluiu.

Ao lado, Catarina Martins retorquiria que, “contudo, a agricultura não está fácil”. Sobretudo – diz – por estar à mercê dos “prejuízos causados por cheias ou incêndios que não são causas naturais e que um agricultor nunca consegue reaver”. “Com estes problemas, ninguém tem margem de manobra para poder avançar”, e “cada vez menos haverá pessoas interessadas nesta área”.

Economia tem de crescer mais

ferraz

Pedro Ferraz da Costa, presidente do Forum para a Competitividade, foi o orador principal da conferência dos Prémios Fazemos Bem. Justamente a respeito desta iniciativa, reconheceu a importância de realçar aquilo que é bem feito em Portugal. “Nós temos uma grande quantidade de empresas a fazer coisas boas, que são respeitadas internacionalmente e penso que não há consciência disso. Nesse sentido, este tipo de eventos contribui para que elas se sintam reconhecidas e serve igualmente enquanto fator de motivação para que outras cresçam e se desenvolvam”.

Apesar de tudo, o presidente do Fórum admitiu a existência de motivos para algum pessimismo: “Temos bastantes razões para ter uma visão negativa sobre a situação atual do país. O crescimento tem sido escandalosamente baixo e não foi por causa da crise ou da troika; é um problema que vem de há muitos anos”.

Ao mesmo tempo, Ferraz da Costa defendeu que é possível estabelecer objetivos mais ambiciosos e que teriam consequências muito positivas quer para as empresas quer para os que nelas trabalham. “Valeria a pena definir como meta crescer entre 3% a 4% e confrontar os que têm de tomar decisões políticas com este compromisso”, referiu.

Para inverter o rumo vigente, o orador acredita que os empresários nacionais devem, cada vez mais, procurar fazer com que os seus negócios se expandam. “No mercado externo não há falta de nada. É um mercado infinito. Lá fora conseguimos resolver quase todos os problemas que não resolvemos cá dentro”. Lograr uma redução da despesa pública que, por seu turno, permita sustentar a existência de níveis de fiscalidade mais atrativos foi outro dos pontos vincados.

Ana Correia Costa e Duarte Pernes