Fazemos Bem

13/06/2016

Cogumelos conquistam hábitos dos portugueses com arte transmontana

Sousacamp. Trás-os-Montes e Alto Douro é amiúde notícia pela desertificação tão notada no interior de Portugal. Este é um fenómeno com efeitos negativos para a região e que dificulta a sua aproximação da parte litoral do país quer em termos populacionais, quer a nível infraestrutural. Com isto, bem se poderia estar perante mais uma história sobre um belo lugar transmontano votado ao esquecimento ou uma empresa aí sediada condenada ao fracasso. Não é o caso do Grupo Sousacamp e da sua produção de cogumelos que, desde 1989, se têm mantido como referência do que de melhor se faz ao nível do setor primário.

É certo que os primeiros passos não foram fáceis, até por força de algum preconceito do mercado nacional em relação ao produto em si, mas o tempo e a persistência concorreram para que as adversidades fossem superadas. Quem o garante é Artur de Sousa, presidente do conselho de administração da Sousacamp: “Nos primórdios foi tudo difícil porque não havia consumo de cogumelos em Portugal. Tínhamos o produto e faltava-nos o consumo. Foi preciso desenvolver essa vertente e nós fizemo-lo, convencendo algumas pizzarias conhecidas, em Lisboa e no Porto, a utilizar cogumelos frescos nas suas pizzas. A partir daí, a marca foi-se difundindo, ao mesmo tempo que começaram a abrir os primeiros hipermercados e que se tornaram também nossos clientes”.

Ultrapassados os problemas iniciais, a empresa foi aumentando o volume de negócios e viu-se obrigada a ampliar e a criar novas instalações que complementassem as da sede, localizada no concelho de Vila Flor. “Em 2007, expandimo-nos para Vila Real e Paredes, a juntar à unidade que já possuíamos em Mirandela. Depois, fizemos aquisições em Espanha”, informa Artur de Sousa. Contando ainda com Sabrosa, são, sete unidades produtivas: cinco em Portugal e duas em Espanha. No total, permitem que sejam geradas 20 mil toneladas anuais.

O método de produção dos cogumelos é complexo e obedece a vários passos. Tudo começa na palha – a matéria-prima principal – e passa por vários estádios até se chegar à fase do carregamento das prateleiras inseridas nas fábricas, onde são controlados a temperatura, a humidade, o CO2 e a ventilação. A Sousacamp trata deste processo integralmente, sem intermediários e sem o recurso a químicos. E se os cogumelos continuam a assumir o “core business” da Sousacamp, o grupo conta hoje com uma gama diferenciada de ofertas, onde figuram igualmente os pimentos ou os espargos.

Certo é que a empresa tem percorrido um caminho seguro e a aposta neste tipo de negócio atingiu um sucesso mensurável, entre outros aspetos, pela quota de mercado alcançada e que chega aos 35% em Espanha e se cifra entre os 90 e 95% no território português. Aliás, a faturação do grupo rondou os 50 milhões de euros em 2015.

A maior fatia destas vendas é oriunda das exportações pois, segundo Rui de Sousa, “o mercado nacional manifestou uma propensão para abrandar. Com a crise, as pessoas vão-se protegendo nos seus hábitos de consumo”. De tal forma que a empresa tem previsto adquirir mais uma fábrica na Holanda, com vista à distribuição de produtos naquele país.

Sob a alçada da Sousacamp estão cerca de 550 empregados, espalhados por todos os postos fabris da empresa. O presidente do grupo mostra-se satisfeito com este facto e assegura que a tendência irá num sentido idêntico ao de até aqui: “Até ao dia de hoje, não despedimos ninguém e conseguimos aumentar o número de funcionários”.

Rui de Sousa admite que parte da política da empresa consiste numa relação intrínseca com Trás-os-Montes, algo que tem ajudado ao desenvolvimento da província: “Conseguimos pôr uma escola primária – abandonada há anos – a funcionar, conseguimos que a rede de estradas aqui à volta fosse mais usada pelos camiões e contribuímos para que o concelho de Vila Flor fosse o que mais cresceu na região. Combatendo o efeito da desertificação, fazemos parte da história de Trás-os-Montes e vamos continuar a fazer”.

Terminar o espaço agroindustrial de Vila Real, ainda em construção, é a principal ambição do presidente do grupo a curto prazo. Uma obra que Artur de Sousa considera como sendo “estruturante para a empresa, na medida em que irá possibilitar o aproveitamento e divulgação de alguns produtos regionais, numa relação dinâmica com os cogumelos, como por exemplo castanhas, maçãs, cerejas, entre outros”. Outra ideia, já solidificada, prende-se com a criação de restaurantes temáticos, em Londres e Paris, onde os cogumelos serão também os protagonistas. Um projeto que deverá ser concretizado no ano de 2018.

Como cresceu durante a crise?

Se a crise financeira mundial prejudicou o funcionamento de uma grande quantidade de instituições do ramo empresarial do país, o interior foi particularmente castigado por uma conjuntura desfavorável. Artur de Sousa confirma esta ideia, mas não deixa de destacar o espírito perseverante que não só fez com que a Sousacamp sobrevivesse, como conseguisse crescer: “ Atravessámos a crise e a falência do Banco Espírito Santo, que era um dos nossos acionistas, mas somos resilientes e nunca nos ficamos. Estamos a vencer desafios constantemente e temos produtos inovadores, que promovem uma alimentação saudável. Por isso, foi possível superarmos as vendas ano após ano”. O presidente do conselho de administração do grupo não deixa, no entanto, de fazer reparos à postura da classe política em geral e, sobretudo, aos sucessivos governos: “Não há estabilidade em Portugal. O que vemos é que os governos não têm palavra. Hoje fazem umas leis, amanhã alteram-nas e isto faz com que tenhamos muitas dificuldades em obter licenciamentos”.

Duarte Pernes