Fazemos Bem

30/05/2016

Vinagres e molhos temperam negócio com marcas sem fronteiras

Mendes Gonçalves. Quando, há 33 anos, Carlos Gonçalves, um jovem então com apenas 16 primaveras completas, se decidiu juntar ao seu pai (já de saúde débil) para começar um negócio na Golegã, dificilmente se poderia imaginar que o resultado fosse uma empresa que viria a ser respeitada no país e que contaria com uma dimensão que vai muito para lá das fronteiras lusas. O vinagre de figo foi apenas o ponto de partida, numa altura em que apenas se produzia vinagre de vinho. Os pontos de chegada e de satisfação plena, esses, parecem não ter fim à vista. A incessante vontade de inovar e surpreender assim o determinam, funcionando até agora como lema da Mendes Gonçalves.

E foi, precisamente, pela determinação em fazer bem e diferente que o protagonismo do vinagre se diluiu com o passar do tempo. Não que este tenha deixado de ser produzido, mas a partir de 2000, a Mendes Gonçalves alargou o seu naipe de ofertas, inaugurando a primeira fábrica de molhos no país. João Pilão, administrador e responsável pela área comercial e de marketing da empresa, explica como tudo se processou: “Em termos de litros produzidos, o vinagre continua a deter a primazia, mas os molhos valem hoje mais de 70% do nosso volume de negócio”. Refira-se que, até ao surgimento da tal fábrica, Portugal era quase um importador de molhos e temperos por excelência. Uma realidade que, a partir daí, mudou.

“Conseguimos que deixasse de ser necessário que empresas espanholas e alemãs nos fornecessem. Ou seja, nós não só passamos a exportar, como impedimos importações”, salienta o administrador.
Ainda neste âmbito, a Mendes Gonçalves lançou múltiplas marcas – como a Paladin (de molhos), a Peninsular (de temperos) e a Creative (de vinagres) – que apontam a vários mercados mundiais. O cariz multifacetado de todas elas materializa a máxima que norteia toda a filosofia da Mendes Gonçalves: a inovação. Para lá dos clássicos ketchup e maionese, há igualmente molhos de coentros e alho, de mostarda e mel ou, noutra linha, vinagre de tomate. São mais de 220 receitas em produção que, por seu turno, se desdobram em 40 milhões de litros de vinagre e 15 mil toneladas de molhos por ano.

De forma a albergar toda esta variedade, a empresa foi forçada a erguer um grande armazém, em 2015. Até lá, bem se poderá afirmar que a Mendes Gonçalves conheceu as dores do crescimento repentino que teve, pois as instalações existentes foram-se tornando demasiado apertadas, o que inclusive dificultava a ação dos trabalhadores. Com este novo espaço, passou a ser possível armazenar cerca de quatro mil paletes.

Um dos aspetos a assinalar em relação à Mendes Gonçalves é o aumento progressivo que tem havido em relação à mão-de-obra. “Considerando a fábrica que abrimos em Angola, estamos a falar de mais de 300 pessoas que aqui trabalham”, conta João Pilão. O administrador esclarece que, dentro destes números, “mais de 50 possuem formação superior”, reflexo da política de investigação e desenvolvimento promovida. Paralelamente, a empresa assume uma aproximação à comunidade e aos que dela fazem parte: “As pessoas são a razão da nossa existência. Queremos ser uma empresa em que as pessoas sorriem. Se assim for, o sucesso está garantido. Assumimos igualmente uma responsabilidade social, na medida em que esta é uma zona de figo e nós, ainda hoje, fazemos vinagre deste fruto porque os agricultores nos entregam os seus figos”.

O que também cresceu foi a faturação. Se em 2014 os níveis desta rondavam os 26 milhões de euros, em 2015 ascenderam aos 30 milhões, consolidando as contas quer do estabelecimento em Portugal, quer em Angola. Já os lucros “aumentaram, embora menos do que o que seria desejável. No entanto, vão crescendo todos os anos”, confessa o administrador da empresa que acrescenta que esses proveitos são canalizados para o investimento interno.

No que respeita à estratégia externa, João Pilão refere que o grande objetivo é atacar os mercados emergentes do Norte de África (Marrocos e Argélia, em particular) e do Médio Oriente e, ao mesmo tempo, chama a atenção para o seguinte: “Nós não exportamos, internacionalizamos, que são coisas diferentes. O que fazemos é escolher o parceiro certo em cada país e, nesse país, só temos um distribuidor. Depois, posicionamos a marca e estudamos o mercado para que o preço do produto seja competitivo e a marca seja relevante para os consumidores locais”. Tornar-se útil para os 26 países em que está presente e adaptar-se a eles são, pois, dois dos critérios de atuação.

A atestar a visão internacional da Mendes Gonçalves estão os prémios de inovação que lhe foram concedidos já em 2016 pela Gulfood e pela Sial, em 2013 – duas feiras alimentares de renome a nível mundial. No caso do galardão atribuído pela Gulfood, ele foi resultado da “ousadia de fazer o primeiro ketchup do mundo com uma designação de origem, que se chama ketchup à portuguesa”, declara o responsável da empresa que vê estas distinções como prova de que não há metas inatingíveis.

Apesar de toda a diversidade de invenções e inovações que a empresa já apresentou, o filão de produtos ainda está longe de se esgotar.

Como cresceu durante a crise?

Se para muitas empresas, portuguesas e estrangeiras, a crise financeira representou um rude golpe na vitalidade e no desenvolvimento, bem se pode afirmar que a Mendes Gonçalves esteve em contraciclo com esta conjuntura. João Pilão confirma esta ideia. “Ultimamente não sentimos dificuldades. Crescemos durante a crise e, nos últimos cinco anos, duplicámos o nosso volume a vários níveis. Temos andado no sentido contrário ao da crise, estamos num ciclo de progresso. Passámos por dificuldades, como toda a gente, mas ultrapassámo-las. Acreditámos e seguimos em frente”. Qual é o segredo para a inversão daquela que foi uma tendência devastadora e global? “A base de tudo foi estarmos permanentemente inquietos. Acreditarmos nos nossos recursos humanos e que o impossível é para nós possível. Não nos queixámos de nós próprios, confiámos e fomos à luta. Às vezes, as crises são boas porque nos obrigam a ir para fora e a perceber que podemos ser melhores do que pensamos e do que muitos pensam”.

Duarte Pernes