Fazemos Bem

16/05/2016

Catorze gerações levaram os vinhos do Porto até ao topo

Symington. O vinho do Porto é, mais do que um produto ancestral, uma marca mundialmente conhecida e por todos apreciado. À sua volta, nasceram e cresceram uma série de famílias que, frequentemente, emprestaram o seu apelido e fundaram empresas que, ainda hoje, são referências na esfera da vinicultura. É o caso da Symington Family Estates, uma das principais produtoras deste tipo de vinho, cujas raízes se dividem entre Portugal, Inglaterra e Escócia e que constitui a maior extensão de área vitícola da Região Demarcada do Douro (1022 hectares, mais exatamente).

A história da Symington é vasta e as suas origens obrigam a recuar alguns séculos. No total, são 14 gerações que perfazem 350 anos de trabalho relacionado com o vinho do Porto. Tudo começou quando o jovem escocês Andrew James Symington chegou, em 1882, a Portugal e se casou com uma senhora de família luso-inglesa que mantinha já uma ligação aos vinhos. “A partir daí, nunca mais parámos”, começa por contar Paul Symington, o presidente do conselho de administração desta empresa.

Hoje, a Symington detém o controlo das vinhas e a produção de vinho de quatro casas: a Graham’s, a Cockburn’s, a Dow’s e a Warre’s. É também proprietária da Quinta do Vesúvio, uma das maiores propriedades vinícolas portuguesas. Tudo isto sem que a família perdesse nunca o poder decisório na sua administração. O estatuto de negócio familiar, aliás, é enaltecido por Paul Symington que acredita que, neste campo específico, esta designação só traz vantagens: “Estou absolutamente convicto que o facto de ser uma empresa familiar é muito importante no mundo dos vinhos. Não será tão decisivo para um fabricante de automóveis ou de mobília, por exemplo, mas aqui é diferente porque uma pessoa que bebe vinho gosta de saber de onde é que ele vem e quem o faz. Ser uma empresa familiar ajuda a comunicar com os consumidores”.

Por outro lado, o presidente da Symington admite que há uma série de fatores a levar em conta para que uma empresa deste tipo se mantenha estável e não corra o risco de começar a decair: “É preciso muito cuidado com a sucessão. Estou neste setor há 37 anos e vi muitas empresas familiares a desaparecer. Portanto, há um grande perigo quando uma empresa não é bem gerida e onde não há unidade entre os membros da família. Eu trabalho diretamente com três primos meus e com o meu irmão e procuramos fazê-lo sempre em conjunto para evitar precisamente que isso aconteça”.

Em paralelo com a produção e comercialização de vinho do Porto, há que mencionar igualmente a aposta forte da empresa numa outra atividade: o turismo. De resto, a Symington conta com três centros de visita que seguem uma estratégia virada para o turismo de qualidade. Paul Symington congratula-se pelo sucesso obtido também nesta vertente e confessa que o aumento de turistas no Norte do país, em especial na cidade do Porto, “tem sido muito benéfico para os vinhos da empresa”.

No que se prende com o posicionamento de mercado, a Symington possui uma quota de 33% de vendas nas categorias especiais, sendo a principal produtora de “Portos” de qualidade superior. Além disso, segundo garante Paul Symington, a empresa, no seu todo, tem uma capacidade de produção de “centenas de milhares de caixas”.
Ao nível dos postos de trabalho, verifica-se um crescimento assinalável nos últimos anos, havendo atualmente cerca de 500 empregados. Tão importante como isto, na opinião do presidente da empresa, é a competência e relação de entreajuda de todos os trabalhadores: “Um dos nossos grandes bens é termos uma equipa motivada de colaboradores. Temos um quadro excelente de profissionais. Sem eles, não conseguimos fazer nada”.

Quanto às contas apresentadas, em 2014 (um ano difícil para os produtores de vinho do Porto) os lucros rondaram o milhão e 100 mil euros. Mesmo assim, o ano passado, assegura Paul Symington, “foi muito melhor”. Estes são resultados que provêm, essencialmente, dos mercados de exportação (sobretudo da América do Norte e da Europa), responsáveis por 95% das vendas da Symington.
Entre as várias distinções com que já foi agraciada a empresa, o seu presidente destaca os prémios atribuídos pela revista americana “Wine Spectator”, o Óscar dos vinhos como a apelida. Foram aí consagrados o Dow’s Porto Vintage 2011 e o Chryseia 2011 Douro DOC (ambos produzidos pela Symington), respetivamente com o primeiro e terceiro lugares, num top 100 de vinhos à escala mundial.

Sobre aquilo que os próximos tempos poderão reservar, Paul Symington alerta para a constante necessidade de inovação da marca, assim como para um ajuste dos seus produtos aos novos estilos de vida: “se nós não inovarmos e investirmos, certamente que há o perigo de sermos esquecidos.

Como cresceu durante a crise?

Sensivelmente a partir de 2009, com a crise financeira mundial, termos como “medidas de austeridade” e “cortes nas despesas” marcaram a sociedade em geral, sendo reproduzidos inúmeras vezes nos meios de comunicação.

A Symington, contudo, optou por fazer uma leitura diferente do modo de ação a seguir, segundo explica o seu presidente: “É preciso investir quando os outros não estão a investir. Em alturas de crise, as pessoas têm medo de arriscar. Nós, pelo contrário, continuamos a comprar quintas, a investir na renovação da vinha e do turismo. Fundámos também uma nova empresa de distribuição de vinhos de qualidade, chamada Portfólio, que hoje em dia emprega mais de 30 pessoas e fatura acima de sete milhões de euros”.

Uma mentalidade que como reconhece Paul Symington, pode ser vista, por quem está de fora, de maneira controversa e até com incredulidade, mas isso não foi suficiente para condicionar a posição já tomada: “Toda a gente disse: vocês são malucos! Criar mais uma empresa agora?”.

Duarte Pernes