Fazemos Bem

17/12/2015

Conferência: Fronteiras entre bens e serviços desapareceram

Legenda: David Pontes (à direita), subdiretor do JN, conduziu um debate em que
tomaram parte Jorge Batista (Primavera Software) – à esquerda -, Celeste Pereira (Greengrape), Francisco Carballo-Cruz (Universidade do Minho) e Filipa Frois Almeida (FARH 021.3).

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“Com o crescimento das tecnologias, por um lado, e devido aos efeitos da globalização, por outro, houve um esbatimento progressivo das fronteiras entre o setor da indústria e aquele que é hoje o setor dos serviços”, referiu Alberto Castro, chairman da Instituição Financeira de Desenvolvimento (IFD), mais conhecido como banco de fomento. Para este docente da Universidade Católica do Porto, as alterações são de tal modo agudas que “os bens passam a ser uma espécie de mal necessário para que os serviços possam ser aplicados”.

Na conferência dos Prémios Fazemos Bem 2015 dedicada ao setor terciário, que decorreu no dia 10 de dezembro na Exponor, o especialista foi mesmo mais longe ao afirmar que “do ponto de vista da economia tenho algumas dúvidas que este setor faça sentido”. A este fenómeno de transição, Alberto Castro (na foto em baixo) denominou de “servitização”. Ou seja, “o bem já não é só uma coisa que pesa, que tem dimensão e estrutura, e os serviços uma coisa mais etérea. Não compramos apenas um eletrodoméstico, mas sim um conjunto de serviços associados”.

albertocastro

O chairman do banco de fomento alertou para a ideia de que estas alterações “vão trazer ainda mais consequências”, desde logo “na forma como é organizada a parte produtiva”. Neste ponto, o orador sublinhou que “é importante a não existência de clubismo da economia em setores,”mas sim “a existência de uma maior proximidade ao nível das empresas”.

Para o docente universitário, é clara a ideia que “se isto não for visto com atenção vai afetar uma rede de relações de empresas de vários setores” e que estas transformações “deviam ter repercussões na política”. E lançou a pergunta: “Será que faz sentido termos centros tecnológicos setoriais ao mesmo tempo que se desperdiçam recursos?”.

O conferencista destacou ainda que “é importante que a política reflita aquilo que tem vindo a acontecer e que incentivem práticas que estejam de acordo com a realidade da economia”. E concluiu: “Se a economia é assim, espera-se que o homem não separe aquilo que a economia uniu”.

João Vieira Lopes (na foto em baixo), presidente da Confederação de Comércio e Serviços de Portugal (CCP), reconheceu que “o tema dos serviços em Portugal sempre foi um pouco maldito” porque “confundia-se com bens não transacionáveis e dizia-se que não acrescentava valor. Mas o produto final engloba tudo e a visão industrialista é limitada”.

JVLopes

Em linha com as ideias defendidas por Alberto Castro, o líder da CPP, sublinhou que “há que ter uma visão de toda a globalização”. Ciente do desafio, partilhou que “hoje, quando representamos o setor na concertação social, temos a noção de que este é muito complexo”.

A força do capital humano
Lembrando que “ao contrário da indústria, onde os bens exportados incorporam 40% de matéria importada, os serviços apenas incorporam 20% de importação”, o responsável destaca que “o capital humano é a grande mais-valia do setor”. E sobre este tema, João Vieira Lopes não tem dúvidas de que “Portugal tem um potencial extremamente grande”.

E há boas notícias. “Somos atualmente um país muito procurado por multinacionais que se querem implementar em Portugal, sendo que a grande limitação até já é não termos técnicos suficientes para tanta procura”, exemplificou.

Francisco Carballo-Cruz, professor da Escola de Economia e Gestão da Universidade do Minho, defendeu mesmo que “não há motivos para tantas queixas, o país não está assim tão mal. Por exemplo, é dos mais rápidos do processo de criação de empresas e registo de sociedades e tem uma dinâmica tremenda no setor dos serviços onde dois terços das empresas são exportadoras, incorporando muito conhecimento”.

Para este especialista, “é uma revolução que deve ser aproveitada. É imperioso que apareçam instrumentos financeiros que apoiem estas empresas”.  A complementar a ideia da importância do valor humano e do financiamento, Jorge Batista, cofundador e administrador da Primavera Software, adicionou outros ingredientes importantes: juntar competências e fazer parcerias.

“A economia como um todo está a transformar-se e está a surgir um entrelaçar das cadeias de valor, uma transformação que nós como homens nunca tínhamos sentido e, provavelmente, vai aumentar no futuro com as condições tecnológicas que temos”, afirmou o empresário.

Interpretar antes da concorrência
Fruto da certeza de quem está na economia real, Jorge Batista mostrou-se convicto de que “temos de ajudar as empresas passando conhecimento, fazendo-o com equidistância. Ninguém tem o conhecimento de tudo. Quando nos dirigimos às empresas de serviços, a rede consiste em juntar competências”.

Até porque, acrescentou, “hoje temos a vantagem de estar conectados ao Mundo permanentemente. Os consumidores sabem exatamente aquilo que querem e já fizeram o trabalho de casa. E não menos relevante é que quando queremos ter o produto, queremo-lo na hora. Esse querer ter é digital”.

Por conseguinte, para o responsável da Primavera Software, “o desafio atual é o de competência ao nível global – com empresas muito grandes e com as muito pequenas – e isto exige que as empresas, e sobretudo as indústrias, se preparem para as necessidades destes novos consumidores”. Como? “Conseguir interpretar e atuar antes da concorrência”, respondeu.

E uma grande ajuda para se conseguir fazê-lo é através do consumidor, como defendeu Celeste Pereira, diretora-geral da Greengrape, empresa de comunicação nas áreas dos vinhos, gastronomia, turismo e cultura, já que “os consumidores também fazem parte do produto”. E o meio online é uma das ferramentas “que não podemos ignorar” para os conseguir interpretar e com eles interagir.

Por seu turno, Filipa Frois Almeida, cofundadora da FAHR 021.3, empresa de arte e arquitetura, partilhou a sua experiência de empreendedora e destacou a importância do foco e das ideias. “No início fazíamos muita coisa, talvez de mais, e depois fomo-nos focando. Hoje vendemos ideias, conseguimos começar a exportar, ganhamos alguns prémios e agora são os clientes que se dirigem a nós e nos pedem projetos”.

Texto: Marta Araújo Fotos: Pedro Granadeiro/Global Imagens