Fazemos Bem

23/11/2015

Um negócio que conta com ajuda dos ventos para navegar há 240 anos

As empresas portuguesas que nasceram antes do século XIX e ainda estão em atividade contam-se pelos dedos das mãos. Esta é a quinta mais antiga e um caso raro de negócio que venceu o tempo. Com uma história recheada, a Garland tem hoje uma presença sólida, em Portugal e no Mundo, nas áreas da navegação, transportes e logística.

Quase se pode dizer que esta empresa nasceu por vontade dos ventos e marés. Rezam as crónicas que, em 1775, Thomas Garland, mercador inglês que negociava bacalhau da Terra Nova para Inglaterra e França, deparado com uma tempestade a bordo do seu navio, viu a rota desviada para sul. Lisboa foi um destino inesperado no qual vendeu toda a mercadoria. Um sucesso que o levou a abrir ali escritório no ano seguinte.

A Garland iniciava assim um trajeto com contratempos, como as guerras napoleónicas, que obrigaram os responsáveis a fugir do país, mas também oportunidades para lá da venda de bacalhau. E foi em 1855, já com os Garland associados à família Laidley (ligação que subsistiu três gerações), que surgiu uma aposta duradoura. Nesse ano, os armadores de Liverpool nomearam a empresa como agente dos seus navios na costa portuguesa. “No documento, de uma página, assinaram mais de 20 armadores. Hoje seria impossível”, conta Bruce Dawson, presidente do grupo.

Os destinos da firma são geridos pela família Dawson há cinco gerações. E tal aconteceu porque, em 1866, o bisavô de Bruce, que vivia no norte de Inglaterra, fugiu da escola com 16 anos e embarcou clandestinamente num navio que teve Lisboa como primeiro porto. “Saiu e viu então a Garland Laidley e, como tinha nome inglês, resolveu tentar a sorte”, explica.

Na altura, o bisneto de Thomas Garland deu-lhe uma tarefa: fazer o seu chá, todas as tardes, pelas 16.15 horas. E assim começou. Mas dias depois, apareceu um jornal inglês com a fotografia do bisavô de Bruce e a história de um rapaz fugido da escola. “O senhor Garland obrigou-o a voltar, mas escreveu ao pai do rapaz a dizer que poderia trabalhar na empresa depois de completar os estudos”. Anos mais tarde, tornou-se sócio e continuou o negócio após o desaparecimento da família fundadora.
A empresa sempre abraçou novos rumos. Foi autorizada pelo Governo português a imprimir notas de banco, apoiou a primeira travessia aérea do Atlântico Sul concluída por Gago Coutinho e Sacadura Cabral e, quase sem saber como, tornou-se distribuidora de materiais de segurança.

Numa deslocação a Londres em 1938, o último dos Garland encontrou o dono da Chubb, marca famosa no setor. “Durante três noites a conversar em bares, os dois terão acordado com aperto de mãos que a Garland fosse a representante em Portugal. Já depois da Segunda Guerra Mundial, recebemos uma carta, questionando a falta de negócios. A surpresa foi geral, mas a verdade é que começámos a vender cofres, portas-fortes e alarmes até sairmos do ramo em 1998”, recorda. Os pneus foram outra aposta descontinuada. Durante mais de 30 anos, a Garland foi distribuidora exclusiva da Dunlop no país e vendeu insígnias como Uniroyal, Sportiva, Kenda, Primewell e Runway.

Os transitários ganharam força, paradoxalmente, em plena Segunda Guerra Mundial. “Uma empresa britânica, representada por outra alemã, convidou-nos para assumir o seu lugar. Foi fantástico porque éramos um país neutro e tínhamos ainda um dos maiores transitários suíços, o que abriu um corredor entre Portugal e Suíça, que também chegava a Inglaterra”.

Por via terrestre, marítima ou aérea, a atuação da Garland é hoje mundial. Tem agentes em todos os países e filiais em Espanha e Marrocos. Já a operação de logística, desenvolveu-se nos últimos 20 anos com o investimento em centros logísticos, distribuídos por Lisboa, Famalicão, Maia, Gaia, Aveiro e Marinha Grande. “Estamos focados nos transportes e na logística. É aí que queremos investir”, frisa.
Numa sexta-feira à noite, a empresa movimenta mais de 50 camiões para fora do país e outros tantos, durante a semana, chegam no sentido inverso. “As nossas empresas têm trabalhado bem a exportação. Há áreas fantásticas, como calçado, têxteis, azeite ou vinhos”, diz Bruce Dawson.

A Europa é onde tem maior volume de trabalho. Mas há mais. “Temos trabalhado na Ásia, nos EUA e olhamos para América do Sul e Médio Oriente como mercados importantes”. Responsável pelo agenciamento de 700 navios entre Lisboa e Leixões, a Garland tem 320 colaboradores. Em 2014, o volume de negócios foi de 98 milhões de euros e este ano deverá superar os 100 milhões.

A empresa vê na modernização tecnológica uma forma de “estar à frente”. É o avançado conhecimento que lhe vale, por exemplo, um contrato para transporte de componentes para a Autoeuropa. Para Bruce Dawson, o sucesso deve-se ao trabalho e proximidade. “Somos uma família unida e trabalhamos muito. Não é por termos uma empresa na família que temos direito a emprego. É preciso aprender primeiro. Aqui a pessoa no lugar mais humilde é tão importante como alguém que desempenhe um lugar na Administração”.

Bruno Amorim