Fazemos Bem

26/10/2015

Um doce negócio que faz as delícias de todos os portugueses há 82 anos

É uma marca icónica. Os chocolates e amêndoas artesanais fazem as delícias de portugueses e não só. Não renega as origens e faz da tradição uma força. Sem parar no tempo, continua a modernizar a oferta e a expandir lojas pelo país. Acaba de abrir um espaço em Aveiro e pensa lançar um formato inovador de quiosques de café. A Arcádia Casa do Chocolate conta 82 anos recheados de histórias doces que aguardam novos capítulos.

Tudo começou em 1933. No mesmo ano em que um grupo de especialistas em Direito liderado por Salazar apresentava o novo texto da Constituição, um empreendedor nortenho com negócios de hotelaria e restauração (entre eles a portuense Confeitaria Portugal e o Hotel Garantia, em Vila Nova de Famalicão), Manuel Pereira Bastos, abria uma confeitaria, em plena Praça da Liberdade, que rapidamente se tornaria uma referência da cidade do Porto.

Com instalações e decoração avançadas para a época, a Confeitaria Arcádia começou a ser um espaço predileto da alta sociedade e de quem vinha à Baixa fazer compras. “Era hábito as pessoas usarem a Arcádia como ponto de encontro”, conta João Bastos, neto do fundador e administrador da empresa em conjunto com a irmã Margarida. Ambos conheceram os cantos à casa desde cedo e ajudaram a família nas férias da escola, sobretudo no Natal e na Páscoa.

Para se ter uma ideia do impacto que a abertura da Arcádia teve no Porto, basta dizer que esta chegou a ser tema principal de peças de teatro de revista ou canções, a que figuras importantes faziam questão de assistir. Famosa pelos chocolates e amêndoas de licor, a notoriedade foi tal que se tornou tradição para quem vinha de fora levar dali uma caixa no regresso.

Os relatos são muitos. Como o de um antigo engenheiro que participou na construção da refinaria da Petrogal em Matosinhos e que décadas mais tarde, numa loja em Lisboa, questionado se conhecia a marca, respondeu: “Conquistei a minha esposa com estes chocolates. Sempre que vinha do Porto trazia uma caixa para a minha então namorada”.

Com carreiras profissionais fora da empresa, João e Margarida Bastos passaram a dedicar-se a 100% ao negócio no início do século. Tiveram de tomar decisões estratégicas que acabaram por trazer grandes transformações. A primeira passou pelo encerramento, em 2000, da antiga confeitaria Arcádia, que havia deixado de ser rentável. Conscientes de que continuava a existir um público fidelizado aos seus produtos, mantiveram uma loja na Baixa portuense, na Rua do Almada, onde se encontra ainda hoje a fábrica.

Seguiu-se o processo de expansão. “Começámos a pensar fazer algo mais. Sobretudo em locais de grande tráfego. Testámos um quiosque no NorteShopping e a experiência foi positiva, o que nos levou ao fim de um ou dois anos a criar um conceito mais alargado de loja, combinando produtos tradicionais da marca e cafetaria em vários centros comerciais”, sublinha.

A estratégia de crescimento infletiu depois para a abertura de bombonarias em lojas de rua. “Entendemos que o conceito funcionava melhor em zonas de escritórios e áreas habitacionais”. E foi com este formato que a empresa deu o salto para fora do Grande Porto com a abertura da primeira loja em Lisboa em dezembro de 2010. “As pessoas reconheceram facilmente a marca e isso fez-nos perceber que tomámos a opção certa”.

Hoje, a Arcádia Casa do Chocolate tem 24 lojas distribuídas por Porto, Lisboa, Braga, Guimarães, Viseu, Coimbra, Estoril e Cascais, com Aveiro a ser a última adição da lista, um espaço inaugurado recentemente. Além de estabelecimentos próprios e de uma loja online, a estratégia de expansão inclui ainda a franquia da marca a parceiros em algumas localizações.

A empresa tem ainda um formato de quiosques de café em centros comerciais – Coffee Box – que será reformulado e expandido, passando a ter a insígnia Arcádia. “Existe uma oportunidade diferenciadora, pela força da marca e por podermos combinar o quiosque de café tradicional com uma zona para venda de chocolates, amêndoas e alguns produtos de confeção própria (numa fábrica que a empresa detém em Grijó), nomeadamente bolos à fatia, macarons ou quindins. Há cidades onde a marca poderá entrar com este conceito. Devemos avançar a partir do próximo ano”, revela João Bastos.

Com produtos históricos, alguns com a receita original, também é verdade que a Arcádia tem sido pioneira em novas experiências. São exemplos os bombons de vinho do Porto ou de gengibre e canela. A criação de embalagens atraentes para as suas especialidades é outra prioridade, como é o caso da caixa dos bombons de mentol, lançada este mês.

A Arcádia exporta alguns produtos, mas o peso nas vendas ainda é residual. A ideia de distribuir chocolates para lojas fora do país não é a mais atraente. “A ir para outros países, será com lojas próprias ou franquiadas. Os nossos produtos não envergonham ninguém em lado nenhum. Por esse motivo, temos condições para o fazer”, assegura o administrador. Espanha, Brasil e Angola podem ser oportunidades a agarrar.

Bruno Amorim