Fazemos Bem

05/10/2015

Uma empresa que acredita ser possível reinventar a forma de fazer as pontes

Há 15 anos, se dissessem a um engenheiro civil que era possível desenvolver um método de construção de pontes inspirado no músculo humano, seria difícil de este acreditar. Mas, por vezes, o impensável torna-se real. Após um período de investigação, a BERD ganhou vida, a prática confirmou a teoria e as inovações desta empresa de Matosinhos têm contribuído para o desenvolvimento de pontes e viadutos em todo o Mundo.

Pedro Pacheco, presidente-executivo da empresa, analisou bioestruturas nos anos 90, dando particular atenção ao músculo humano. A tese de mestrado foi o ponto de partida para uma investigação levada a cabo na Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto (FEUP), onde uma equipa estudou soluções baseadas na anatomia humana para aplicar em estruturas de engenharia civil.

Foi assim que se chegou ao Sistema de Pré-Esforço Orgânico (OPS), um conceito patenteado em mais de 60 países que visa desempenhar num cimbre autolançável a função de um músculo artificial no qual as forças aplicadas são automaticamente ajustadas às cargas, através de um sistema de controlo, de forma a reduzir deformações e minimizar tensões. “Basta imaginar um braço a suportar peso. Se tiver instruções do cérebro, mantém a posição mesmo que o peso aumente. Foi essa ideia que aplicamos na engenharia civil”, explica Pedro Pacheco.

A confirmação experimental deu–se em 2004. A Mota Engil aceitou aplicar o novo sistema na construção de uma ponte no rio Sousa, com um vão de 30 metros. “Apesar da desconfiança inicial, o ensaio foi um sucesso e o OPS funcionou”. Com este êxito, o passo seguinte foi a constituição da empresa, com a BERD (Bridge Engineering Research & Design) a nascer em 2006 com a missão de criar soluções de vanguarda em métodos de construção de pontes.

“Nessa altura, o investimento em novas pontes sofrera uma retração em Portugal. Nos primeiros meses de atividade, tivemos a certeza de que tínhamos de olhar para a internacionalização”, recorda Pedro Pacheco. Seduzir o mercado global foi a etapa seguinte. Um processo que começou a dar frutos assim que os clientes viram as potencialidades da nova tecnologia. “O primeiro negócio, em Valência (Espanha), foi muito importante. A obra confirmou as vantagens do nosso método e suscitou interesse”.

A partir daí, o OPS não mais tem parado de percorrer o Mundo. Eslováquia, República Checa e Brasil foram destinos. Neste último país, a empresa esteve associada a obras importantes, como a ponte Anita Garibaldi, no Estado de Santa Catarina, inaugurada recentemente, e ainda dois viadutos no Rodoanel de São Paulo.

Segue-se a Turquia, que marca a estreia do M1, um novo produto. “É atualmente o maior cimbre do Mundo e permitirá construir vãos de 90 metros numa ponte em apenas uma semana. Antes faziam-se cinco metros para cada lado no mesmo período. Vai diminuir prazos e poupar milhares de metros cúbicos de betão e toneladas de aço. Por exemplo, com este equipamento, a ponte Vasco da Gama, em Lisboa, teria sido construída com uma redução de prazo, custos e recursos na ordem dos 20%. Em obras desta escala, é muito dinheiro”, frisa o administrador, informando que já estão a ser estudadas novas obras para o sistema M1, na Europa e na América do Sul.

Com cerca de 40 trabalhadores nos quadros, a BERD tem apresentado taxas de crescimento, a cada triénio, na ordem dos 200% a 300%. A sua faturação em 2014 atingiu os 4,6 milhões de euros, que se juntam aos 10 milhões do ano anterior. A exportação representa 100% do negócio desde 2011. “Não temos a expectativa de faturar nenhum euro deste triénio em solo português. Somos uma empresa virada para o mercado global. É duro, mas é possível”. Os mercados mais importantes da sua atividade são 15, onde se incluem Turquia, EUA, Brasil, Colômbia e Europa do Norte. E novas oportunidades poderão surgir na América do Sul, do Norte e Médio Oriente, ou em países como Nigéria, Cazaquistão e Indonésia.

Envolvida no estudo de mais de 100 projetos e na construção de dezenas de obras de pontes, hoje a BERD encontra-se no top 3 mundial das empresas da sua área de atividade, isto num contexto socioeconómico difícil, em que 70% dos competidores desapareceram. Chegar ao cume da montanha é agora o desígnio. “Dizemos isto com humildade, mas com determinação. É importante pelo que significa sermos líderes. Já faltou mais”.

Para Pedro Pacheco, o conceito OPS ainda está na sua infância. “A minha tese de doutoramento referia a utilização do sistema nas próprias pontes e, por agora, só está a funcionar no equipamento que as constrói. Ainda não sabemos onde isto nos pode levar, mas acredito que poderá ir além da própria área das pontes”, salienta.
A aposta na inovação é um caminho inevitável para a BERD. “Estamos sempre a trabalhar em novos produtos. Feita com estratégia e continuidade, a inovação é a semente do desenvolvimento. Além da ligação genética que temos com a FEUP na procura de conhecimento, procuramos incutir toda a nossa equipa com esse ADN”.

Bruno Amorim