Fazemos Bem

17/09/2015

Indústria precisa de bons gestores para crescer e exportar

A segunda conferência de 2015 dos Prémios Fazemos Bem, uma iniciativa do “Jornal de Notícias” que conta com os patrocínios da Peugeot e Exponor, para além do apoio da Bial, debateu, no dia 10 de setembro, os desafios da indústria. Entre dez empresas do setor retratadas pelo JN, a Adira saiu vencedora.  Uma escolha difícil, uma vez que todas mereciam uma distinção.

“O sucesso exportador deve-se ao mérito dos nossos empresários. Perceberam que não podiam ficar dependentes do mercado doméstico e excederam as previsões ao aumentarem as exportações portuguesas de 28 para mais de 40% do PIB. Um grande êxito”, começou por dizer Luís Mira Amaral, presidente do Banco BIC e ex-ministro da Indústria e da Energia de Cavaco Silva.

O presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP), Paulo Nunes de Almeida, corroborou. “Começam-se a perceber casos de sucesso na nossa indústria, prova de que os empresários fizeram o seu trabalho de casa, estando a exportar mais e a contrariar uma tendência negativa da economia. As empresas olharam para dentro de si próprias e reestruturaram a estratégia”.

Numa economia pressionada por um programa de ajuda externa, a experiência empresarial ajudou a dar a volta, considerou Mira Amaral. “Quando veio o FMI na década de 80, conseguimos resolver o problema com a desvalorização da moeda. Desta vez, sem moeda própria e a Europa estagnada, era muito mais difícil e foram as empresas a reagir”, sublinhou.

Para o líder da AEP, “mesmo com o poder político a reduzir a escapatória das empresas com aumentos de impostos em vez de cortar gorduras na despesa pública, conseguiu-se mudar o paradigma com o aumento das exportações inclusivamente dos setores tradicionais”.

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Mas é preciso mais. No entender de Mira Amaral, “seria importante que as exportações chegassem a valores próximos dos 60 ou 70% do PIB e para isso há que diversificar e agarrar oportunidades em mercados como EUA, América Latina, Magrebe e Ásia”, referiu.

E como cumprir este desígnio? “Há que investir, inovar, gerar valor e ser mais competitivo”, sublinha Carlos Brito (segundo na foto em cima, da esquerda para a direita), pró-reitor da Universidade do Porto, que acrescenta: “a maneira mais simples seria baixar preços, mas isso exige recursos humanos baratos. A única opção é competir pelo valor. Só transformando conhecimento e tecnologia em riqueza poderemos gerar competitividade global e sustentável”.

Presente num setor, o farmacêutico, muito competitivo, o diretor- -geral da Bial, José Redondo, exemplifica as exigências de quem está no mercado mundial. “Não se pode ter 99% de qualidade, mas sim 100%. Tivemos uma grande preocupação em obter certificações internacionais e uma forte aposta em investigação e desenvolvimento (I&D) para criar novos produtos, o que nos permitiu ter uma oferta com valor acrescentado, patenteada na Europa, EUA, Canadá e Japão. Era o único caminho”.

O setor têxtil e vestuário conseguiu superar-se. Exposto à concorrência mundial, onde a China é um verdadeiro “rolo compressor”, as empresas têxteis nacionais tiveram de se reinventar. “Aquilo que era produção massiva com baixos salários teve de ser totalmente remodelada. Conseguimos chegar ao sucesso porque temos um espírito de sobrevivência que nos permitiu reinventar a cada momento. Hoje exportamos mais de 70% da produção e os números são manifestamente positivos”, afirmou Paulo Vaz, diretor-geral da Associação Têxtil e Vestuário de Portugal.

Cuidados a ter
Percebido o rumo a tomar, há que não errar. Paulo Nunes de Almeida salientou a importância da competência das equipas de gestão. “Quem tiver bons gestores vai vingar”, avisou o presidente da AEP, acrescentando ainda a necessidade de “haver melhores condições de financiamento pela Banca” e “incutir que em Portugal se fazem bons produtos, para se contrariar o défice das relações comerciais”.

Por sua vez, Carlos Brito relevou a falta de políticas que apoiem o tecido empresarial: “compete ao Estado criar um ambiente favorável aos negócios”. José Redondo apontou, por seu lado, que é preciso inverter “a reduzida falta de investigação feita nas empresas portuguesas, já que a maioria é feita em entidades públicas”. No caso do setor têxtil, Paulo Vaz identificou a comunicação como um dos desafios.

Mira Amaral deixou ainda um conselho às empresas que quiserem abraçar novos mercados: “Não importa só a qualidade do produto ou serviço, mas sim que o mesmo seja entendido pelos clientes. Há que mostrar que temos produtos de alta gama”.

Num país em que 98% das empresas são PME, colocou-se a questão sobre se a dimensão é um problema. “Existe um problema de escala para atuar lá fora, mas cada caso é um caso. Há várias empresas de pequena dimensão que nascem viradas para o mercado global. Continuaremos a ser um país de PME com condições para serem competitivas. Porém, as associações empresariais podem ter um papel importante, através da realização de ações conjuntas e na criação de uma oferta generalizada e complementar”, frisou Paulo Nunes de Almeida.

Sinais positivos
No primeiro semestre de 2015, a exportações atingiram valores históricos, acima dos 36 mil milhões de euros. O setor secundário foi responsável por vendas de mercadorias para o exterior na casa dos 24,6 mil milhões, mais 6% do que em igual período do ano anterior. E dados recentes do Instituto Nacional de Estatística, relativos a 2013, indicam a existência de 70 mil empresas na área da indústria e construção (sendo que 12 mil nasceram nos últimos quatro anos), geradoras de quase 690 mil empregos, 20% do total no país.

O presidente do Banco BIC destacou o bom trabalho realizado em setores tradicionais como o têxtil e o calçado, “que se modernizaram e tiveram visão estratégica”, a competitividade da metalomecânica, madeira e mobiliário, a internacionalização da construção civil, os avanços das indústrias dos moldes e bens de equipamento, a diversificação de mercados do setor do couro e o domínio avançado das tecnologias de informação e comunicação.

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“As empresas deram provas de que o setor secundário é resiliente ao período económico mais desafiante da última década, estando mais preparadas para agarrar as oportunidades”, destacou Leonardo Mathias, secretário de Estado Adjunto e da Economia (na foto em cima).

Bruno Amorim e Marta Araújo