Fazemos Bem

17/08/2015

Famosos calçam marca lusa presente em 20 países

É por ter os pés bem assentes na terra, não fossem eles fabricantes de calçado, que no grupo Ferreira Avelar ninguém se deixa entusiasmar em demasia com o facto de os sapatos que produz serem escolhidos por personalidades como Michael Bublé, Nicolas Sarkozy ou Hugh Jackman. O negócio da família Avelar, que está já na terceira geração, funciona com a maturidade de quem está no mercado desde 1947 em linha com a visão e audácia dos membros mais novos.

Somando os postos de trabalho diretos e indiretos, são mais de 200 os colaboradores que permitem que esta empresa sediada em Fiães, no concelho de Santa Maria da Feira, percorra caminho até 20 países, venda 120 mil pares de calçado por ano e, em 2014, tenha faturado mais de seis milhões de euros.

Quem entra nas instalações apercebe-se da existência de obras. Sim o espaço está a ser ampliado e novos equipamentos foram adquiridos. Não, o objetivo não passa por aumentar a produção, mas sim a qualidade dos processos.

“Em 2014, faturámos seis milhões de euros. Temos registado um crescimento anual médio de 8% a 10%. Sabemos, porém, que este ano iremos manter a faturação do ano passado o que, na atual conjuntura, não está nada mau. São números que estão de acordo com o nosso objetivo”, assegura Rúben Avelar, diretor de vendas da empresa e neto do fundador.

Em causa está o facto de o grupo se encontrar numa fase de investimento, algo que estava previsto de há cinco anos a esta parte. “Tivemos muitos problemas até conseguir ter todas as licenças para podermos crescer. Hoje já estamos a laborar no novo espaço e com isso há uma obrigação moral e financeira de crescer. Sabemos que o mercado não está a ajudar, mas também ao nível comercial estamos a fazer esforços para que em 2016 possamos retomar o crescimento e até aumentar”, explica o mesmo responsável.

Entre o aumento de instalações e a aquisição de equipamento estamos a falar de um investimento que pode chegar a um milhão de euros. “Por ano, vendemos cerca de 120 mil pares de calçado e produzimos uma média de 450 a 500 pares por dia. Com o aumento das instalações toda a gente pensou que a nossa principal prioridade seria aumentar a capacidade produtiva, mas imediatamente dissemos que não, que não passa por aí”, refere o diretor de vendas.

Rúben Avelar assegura que a meta passa por “manter a média diária de sapatos”, mas que desta forma será possível “dar mais amplitude à produção, controlar melhor os processos produtivos e, acima de tudo, proporcionar aos colaboradores outro tipo de condições para poderem laborar, até porque cada processo exige muita concentração”.

Ao caminhar nas instalações assiste-se à antítese da produção em massa e da mecanização. Cada recurso humano trata aquilo que ao fim de quatro ou cinco horas será um par de calçado, como se de um diamante por polir se tratasse. Não é de estranhar, por isso, que o preço médio dos sapatos que saem desta fábrica custe entre 80 a 140 euros, podendo mesmo chegar aos 1000 euros, dependendo do tipo de materiais utilizados e dos processos de fabricação.

Rúben Avelar não esconde que, em determinadas situações, o preço é sentido, por parte de alguns clientes, como uma pedra no sapato, mas a forma de descalçar esta bota está encontrada. Chama-se “open house”, ou seja, levar os clientes à fábrica. “Começámos a fazê-lo há um ano e tem corrido bem, principalmente no mercado europeu, concretamente França. Temos tido algumas surpresas de alguns clientes que aproveitam as férias, porque o nosso país neste momento está entre um dos mais badalados em termos turísticos, para aceitarem o desafio de verem a fábrica a laborar”.

A fórmula tem dado resultado e ajudado a colocar um ponto final no que ao regatear de preços diz respeito. “Já tivemos um cliente que diz que ficou completamente surpreendido porque não pensava, nem imaginava sequer, que um par de sapatos que ele vendia na loja e que recebe lá dentro da caixa, que passasse por tantas mãos. Temos outro que pediu, inclusivamente, para filmar os processos de fabrico e passá-los num plasma na loja”, exemplifica o empresário.

Para além de “desmistificar a ideia da mão de obra barata”, este passo permite, essencialmente, acabar com “a ideia de que Portugal só pode fazer produto de gama média, em termos de preço e qualidade”. E a prová-lo está o facto de a Ferreira Avelar produzir, em formato de “private label” (fornecer para outras marcas), calçado para várias chancelas mundiais de calçado de luxo masculino.
“O ‘private label’ absorve cerca de 70% da nossa produção. Os restantes 30% dizem respeito às nossas marcas. Temos três marcas: duas delas já em comercialização e uma que está em processo de registo que são a Profession Bottier e a Avelar”, refere Rúben Avelar. Se pudesse, assegura, “mudava a percentagem e ficava 70% para as marcas e 30% para ‘private label’ e é para isso que estamos a trabalhar forte, sabendo que não é fácil”. A meta da caminhada passa por “alcançar os 50%-50% nos próximo cinco anos”, remata.

Marta Araújo