Fazemos Bem

10/08/2015

Artistas do metal inovam tanto na Terra como no Espaço

De um simples portão aos componentes de um avião. Há uma infinidade de produtos a sair das “máquinas ferramentas” (termo técnico do produto) feitas pela Adira. Esta empresa do Porto desenvolve, com tecnologia própria, equipamentos para a indústria de metalomecânica. O mercado nacional serviu de esteio para uma longa estratégia de internacionalização. Presente em mais de 60 países, tem agora um plano de expansão que prevê novos canais de distribuição e a reformulação do processo produtivo.

Fundada em 1956, a Adira é hoje uma referência no fabrico de máquinas de dobrar e cortar chapa bem como de corte de chapa a laser. O reconhecimento é mundial e basta olhar para alguns clientes: Bombardier, Bosch, Siemens, Motorola, Arcelor Mittal, Airbus ou Boeing. “Fazemos máquinas transversais para setores como aeroespacial, automóvel, naval, ferroviário ou construção”, explica o presidente António Cardoso Pinto.

Este negócio leva máquinas ferramentas a mais de 60 países dos cinco continentes, sendo que a exportação tem um peso de 80%. Aos primeiros sinais da crise, a empresa foi rápida a reagir e deu início em 2007 a uma estratégia de expansão fora da Europa e EUA, mercados maduros que indiciavam uma quebra na procura de bens de equipamento. “Decidimos apostar em economias emergentes com maior potencial de crescimento. Em sete anos, o peso nas vendas nos novos destinos subiu de 25% para mais de 60%”.

Para competir nos mercados emergentes a empresa repensou o produto, investindo na estandardização e modularização. “Numa filosofia idêntica à do setor automóvel, onde a mesma plataforma pode ser otimizada para produzir várias máquinas, conseguimos baixar custos de produção e oferecer soluções eficazes, económicas e sustentáveis”. Com fábricas no Porto e em Vila Nova de Gaia, está ainda em curso a remodelação da segunda unidade que irá albergar toda a sua atividade. “As obras do novo centro fabril arrancaram há 18 meses e já temos setores de produção a funcionar”, afirma António Cardoso Pinto.

A médio prazo, a deslocalização de parte da produção para outros continentes é uma meta. Para reduzir custos e não só. “Em vez de importarmos chapa do Brasil ou Índia para fazer uma máquina simples, vamos deslocalizar a produção para a América do Sul e a Ásia. Além disso, pretendemos captar lá clientes para as máquinas sofisticadas produzidas em Portugal, o que permitirá gerir uma rede de unidades industriais e ter uma central de compras global”.

Necessidades dos clientes obrigam a Adira a investigar soluções de engenharia avançadas, muitas com patente própria. Uma delas é a fabricação aditiva (“Additive Manufacturing”), inspirada na impressão 3D para fazer peças metálicas de grande porte. “Com a nossa experiência na construção de máquinas a laser para processar chapa, esta é uma área com muitas sinergias”, conta Tiago Brito e Faro, diretor de operações. A inovação permite fabricar uma máquina ou componente, não por acumulação ou montagem de peças, mas a partir de um laser que injeta grãos de pó microscópicos, camada a camada, que se vão solidificando para construir a peça. “Esperamos lançar o produto no próximo ano”, salienta.

Em paralelo à criação de um protótipo de grandes dimensões, a empresa pretende ter um consórcio na área da fabricação aditiva. “Unindo competências, queremos incluir um produtor de pó, um fornecedor de gás e clientes que precisem de peças metálicas de grandes dimensões. Trabalhando juntos será mais fácil”, frisa António Cardoso Pinto.

Outra patente desenvolvida é a “tecnologia desmaterializada”, usada na nova geração de máquinas de quinagem. “Em vez de usarmos peças de chapa inteiras que podem pesar até 30 toneladas, evitamos a complicação logística e fazemos peças a partir de perfis, colocando material apenas onde é necessário”, especifica Tiago Brito e Faro, que acrescenta: “as peças que formam a máquina tornam-se mais fáceis de produzir com menor fração de matéria-prima, de transportar e instalar. E permite uma redução do peso até 40% e de custos até 30%”.

Para dar corpo à inovação constante, a Adira trabalha de perto com várias entidades do sistema científico como Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto, universidades de Aveiro e Minho, INEGI, INESC, Instituto Fraunhofer e Massachusetts Institute of Technology, nos EUA. Jogando em antecipação, já pensa em áreas como software, sensorização, automações e eficiência energética, para aprofundar o conceito de máquina inteligente. “Procuramos ir na linha da frente, sem nos atrasarmos, num mercado onde a concorrência é feroz”, diz António Cardoso Pinto.

Com cerca de 140 colaboradores, a empresa prevê um volume de negócios na casa dos 20 milhões de euros. Crescer e ser uma referência internacional é um desígnio para uma empresa que até já vendeu equipamento à NASA para esta produzir um carro blindado para o ex-presidente dos EUA, George W. Bush. “Os padrões de vida serão mais altos em várias zonas do planeta e acreditamos que vão ser precisas mais máquinas para cortar e dobrar chapa”.

Bruno Amorim