Fazemos Bem

13/05/2015

Um dos melhores vinhos do Mundo vem do histórico Vale Meão

Se há quinta na Região Demarcada do Douro (RDD) com uma história verdadeiramente peculiar, essa é a Quinta do Vale Meão, no concelho de Vila Nova de Foz Côa. Surgiu em terreno virgem há mais de 130 anos, por vontade de D. Antónia Adelaide Ferreira – que ficou conhecida como “Ferreirinha” – foi o berço do famoso vinho Barca Velha, e o ano passado colocou o seu melhor vinho tinto DOC Douro, o Quinta do Vale Meão, entre os quatro melhores do Mundo, na avaliação feita pela revista norte-americana “Wine Spectator“.

Francisco Olazabal, enólogo e responsável da área técnica da sociedade familiar F. Olazabal & Filhos, Lda., diz que a quarta avó, D. Antónia, “foi uma visionária” quando, apesar de já ser a maior proprietária agrícola da região, comprou, à Câmara de Vila Nova de Foz Côa, 300 hectares de terreno onde não havia uma única cepa, até estava fora da RDD e não tinha acesso ferroviário. Mas foi lá que quis criar uma exploração modelo de raiz – de que pouco gozou, pois morreu em 1896 – onde chegaram a trabalhar mil pessoas ao mesmo tempo durante o processo de reconversão, plantando vinha, olivais e sobreiros, construindo casas, capelas, um lagar de azeite, entre outros equipamentos.

A Quinta do Vale Meão foi-se mantendo em posse dos descendentes da “Ferreirinha” e foi nos anos 70 do século passado que o trineto Francisco Javier de Olazabal iniciou a compra das partes de outros herdeiros e coproprietários, até que em 1994 se tornou o único dono da quinta, juntamente com os seus filhos (Francisco, Jaime e Luísa).

Em 1998 deixaram de vender as uvas à empresa A. A. Ferreira SA, também ligada à “Ferreirinha”, e no ano seguinte começaram a produzir os seus próprios vinhos. “Desde então sempre quisemos fazer bem, com qualidade”, recorda Francisco Olazabal, grato pela “sorte de ter uma quinta com características muito especiais, difíceis de encontrar no Douro”. Sendo atravessada pela falha geológica da Vilariça, “tem diferentes tipos de solos numa área relativamente pequena, para além da boa exposição solar e do terreno não muito acidentado”.

As castas, com destaque para a Touriga Nacional, estão separadas e de acordo com os diferentes tipos de solo. Esta aposta, que começou a ser feita pelo seu pai ainda na década de 60 do século passado, mesmo sendo um economista que nunca tinha feito vinhos, permite que agora a Quinta do Vale Meão possa ter vinhas de Touriga Nacional – casta base dos melhor vinhos da quinta – com 40 anos, plantadas numa altura em que quase ninguém apostava nela, por ser pouco produtiva.

A F. Olazabal & Filhos, Lda. começou por apostar apenas na produção de vinhos tintos. Só o ano passado é que lançou um branco, com base em uvas arinto e rabigato compradas a outro produtor daquela zona. Há duas semanas, a empresa acabou por comprar a vinha que produz a rabigato, que fica a 400 metros do Vale Meão. “Se queremos produzir um vinho com origem tínhamos de ser proprietários dessa vinha”, nota Francisco Olazabal.

Mais do que produzir com qualidade, o enólogo diz que o segredo para o sucesso tem sido a sua “consistência”. Ou seja, não ter anos excecionais e outros menos bons. “Queremos ter sempre a melhor qualidade possível, nem que para isso tenhamos de reduzir aos resultados da nossa empresa, e ter uma identidade própria”.

Ao mesmo tempo, confessa ter “alguma precaução” perante a fama, ressalvando que a quinta já teve os seus vinhos “por cinco vezes no top 100 da “Wine Spectator“”, embora só o quarto lugar do ano passado tenha tido grande visibilidade. E isto, sublinha, “dá garantia ao consumidor que não há grandes variações da qualidade”.

A melhor classificação de sempre não aumenta ou diminui a responsabilidade, já que a quinta já tinha uma tradição ligada ao Barca Velha, e que, não obstante, “ser muito interessante”, o vinho “é sempre uma coisa muito subjetiva, cuja nota depende sempre das circunstâncias e da pessoa que a dá”. Apesar disso, assume que, sendo o Douro uma região muito nova a produzir vinhos de mesa, revistas como a “Wine Spectator“, “ajudam muito à promoção internacional” da região. “Antes de o Douro começar a fazer vinho DOC não havia nenhuma revista internacional que falasse de vinhos portugueses. Hoje, todas as revistas internacionais de prestígio têm provadores dedicados a Portugal”.

A F. Olazabal & Filhos, Lda., está agora a preparar o lançamento de vinhos do Porto velhos. Desde 1999 que tem vindo a armazenar cerca de 15 mil litros por ano, e um pouco mais nos últimos anos, o que perfaz neste momento mais de 300 mil litros que “têm de ser rentabilizados”. Em breve, conta apresentar “muito provavelmente tawnies de 10 e 20 anos e um colheita“.

A parte turística ainda não está desenvolvida no Vale Meão, mas Francisco Olazabal admite que “é fundamental e incontornável”. Porém, terá de ser bem pensada, pois o objetivo é “fazer turismo com a mesma qualidade com que se faz o vinho”. Por agora, as visitas à adega estão limitadas a pessoas ligadas ao meio vitivinícola.

Eduardo Pinto