Fazemos Bem

13/05/2015

Conservas que nem Adolf Hitler dispensava no bunker

Estamos em Leça da Palmeira. Um edifício cor-de-rosa dá-nos a confirmação da chegada. É ali que se encontra a conserveira mais antiga do Mundo. São 162 anos de história que terá novos capítulos numa nova fábrica em Lavra. É tempo de ultimar a grande mudança. Na próxima semana, a Ramirez já deverá trabalhar na nova casa, sem esquecer um passado rico de histórias e olhando para um futuro pleno de oportunidades em cerca de 50 mercados.

É preciso recuar até ao último ano do reinado de D. Maria II (1853) para chegar às origens de um negócio que atravessou cinco gerações e percorreu três séculos. Na época, Sebastian Ramirez, um homem do campo andaluz, viu na abundância de atum na costa algarvia uma oportunidade e dedicou-se à sua exploração em Vila Real de Santo António.

Cedo a empresa percebeu que a inovação era vital. A Ramirez adaptou-se às técnicas de conservação que foram aparecendo, desde a salmoura, passando pela esterilização e a refrigeração. Logo em 1865, começou a fazer conservas em latas esterilizadas. A utilização do gelo, no início do século XX, foi igualmente um marco revolucionário.

Durante as grandes guerras, as conservas assumiram grande importância. “Eram vistas como uma solução segura e duradoura para combater a fome. E isso acabou por ser uma oportunidade para a empresa fidelizar mercados como Alemanha ou Reino Unido”, refere o administrador Manuel Teixeira Ramirez. Mais tarde surge um dado curioso. “Fomos informados por um importador alemão que encontraram três latas de sardinha Ramirez num bunker de Adolf Hitler, em perfeito estado de conservação, 17 anos após o fim da guerra”.

Já com o atual presidente na empresa, Manuel Ramirez (pai de Manuel Teixeira Ramirez) foi lançada uma inovação mundial em 1972: a lata de conserva de abertura fácil com argola, que veio a ser adotada por todas as empresas do setor. Outra tendência que a empresa conseguiu antecipar foi a lata de conserva retangular, hoje uma tradição portuguesa e dos países lusófonos, em vez dos formatos redondos que se vendem lá fora.

A Ramirez possui um portefólio de 14 marcas espalhadas por 50 países. A marca âncora é a Ramirez. “A referência da casa, com maior variedade de produtos e mercados”. Outras insígnias estão vocacionadas para mercados externos, como a Cocagne (na Bélgica desde 1906, Holanda, Luxemburgo e França), a Gabriel (na África do Sul desde 1890), a Teddy (Rússia e Grécia) e a Queen of the Coast (Nigéria, Gana, EUA, Reino Unido e Ásia).

Em Portugal, existem ainda duas marcas de forte implementação. A Pescador, líder nas regiões das Beiras há mais de 100 anos, e a General, adquirida há mais de 20 anos, sendo a segunda marca do grupo com maior notoriedade nacional. A partir do atum, a Ramirez criou outras especialidades de conservas e a sua oferta inclui sardinha, cavala, polvo, lulas, bacalhau, anchovas, mexilhões e saladas, entre outros. Ao todo, são 45 referências de produtos.

Em termos de exportação, a sardinha é soberana. “Somos exportadores essencialmente de sardinha. A sardinha portuguesa tem qualidades únicas e países como França, Reino Unido e Alemanha são dos maiores consumidores mundiais”. Em 2014, as vendas para o estrangeiro tiveram um peso de 60%, números que deverão recuar para 50% este ano face ao crescimento do mercado nacional. “O consumidor nacional está mais recetivo às marcas portuguesas”, sublinha o administrador. Com as conservas a ganharem destaque no mercado gourmet, a Ramirez tem estado atenta. “É uma tendência nos últimos três anos, virada para o turismo, mas que tem fidelizado muitos portugueses”.

Neste segmento, a Ramirez apostou na La Rose, uma marca nacional, descontinuada nos anos 70 por uma família próxima da Ramirez, a quem os herdeiros confiaram o relançamento. “É uma gama muito bonita de 10 produtos que está a começar a ganhar espaço dentro e fora do país”.

Para quem já teve fábricas em Vila Real de Santo António, Albufeira, Olhão, Tavira, Setúbal e Lisboa, a mudança não é novidade. Mas o momento é especial. As unidades de Leça da Palmeira e Peniche vão dar lugar a uma unidade fabril em Lavra (Matosinhos) que se chamará Ramirez 1853. “O projeto avançou há três anos. Será uma fábrica moderna, totalmente preparada para as necessidades da empresa e exigências do mercado. Estamos convencidos que este é o momento certo. O arranque da produção nas novas instalações está previsto para 4 de maio”, especifica Manuel Teixeira Ramirez.

A nova fábrica representa um investimento de 18 milhões de euros. “A partir daqui podemos encarar novos desafios, aumentar a produção e fazer novas linhas de produtos para lá das conservas de peixe, mas isso é algo ainda em laboratório”. Uma dessas experiências bem que pode ser o pêssego em calda, uma aposta e um regresso a um produto descontinuado há 20 anos que teve bons resultados num teste recente que a empresa fez no mercado.

Bruno Amorim